segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sonhos D'Ouro - José de Alencar

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A NATUREZA NO SONHO ROMÂNTICO DE INVENÇÃO DE UMA IDENTIDADE DA
NAÇÃO
Valdeci Rezende Borges(UFG/CAC/NIESC)
José de Alencar, em Sonhos D’Ouro, de 1872, tratou de questões que permeavam o
debate cultural da sociedade imperial, como a construção da identidade da jovem nação
brasileira. O romance formaliza a proposta teórica apresentada no prefácio, “Benção
Paterna”, em que se discutem os vínculos entre literatura e experiências socioculturais,
elementos nativos e estrangeiros. A trama centra-se na sociedade da Corte, receptiva a
“elementos diversos” de outras nações, os quais cambiavam a “cor local”, tornando sua
“fisionomia indecisa, vaga e múltipla”, devido à “importação contínua de idéias e costumes
estranhos”. O território dos arredores das serranias da Tijuca predomina como cenário e
aspecto constituinte do romance. Busca-se, aqui, perceber, nas descrições da natureza
fluminense, a edificação de um imaginário formador de uma identidade do lugar e da nação,
destacando suas singularidades, belezas e monumentalidade.
O livro abre-se anunciando as belezas da natureza carioca com a frase “O sol
ardente de fevereiro dourava as lindas serranias da Tijuca”. Em passeios aos pontos de
visitação da montanha ou na residência de veraneio de Guida, a Tijuca ocupa lugar
privilegiado na trama. Na montanha, natureza e sociedade interagem e articulam-se, no
entanto a segunda teve ressaltado seu lado negativo. A flor que brotava na primeira e a
simbolizava, como forma de existência pré-capitalista, foi descrita como originária de uma
“natureza lerda, que ainda cria pelo antigo sistema, com o sol e a chuva”. Mas ela remete
ainda ao que a sociedade moderna, “que tudo aferventa a vapor” e “tudo reduz a uma
pequena operação química”, elegeu como símbolo para tudo mediar, o ouro, o dinheiro. Na
natureza vagarosa, a “pequena flor silvestre” tinha botões que despontavam em dezembro,
conservava estacionários “por muito tempo” e, só dois ou três meses depois,
desabrochavam e murchavam num dia.
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Já a sociedade era lugar do corrido e da corrida ao ouro, em que de porqueiro
enriquecido torna-se banqueiro e Comendador; de tropeiro de muares, Barão...; em que
flores e aves eram associadas a nascimentos em estufa, resultando de “operação química,
por meio da qual suprime-se o tempo, e obriga-se a criação a pular, como qualquer
acrobata.” A flor cor de ouro, de ciclo de floração submetido ao ritmo lento da natureza,
simbolizava o estado contrastante e ambivalente das coisas. Ela aparece depois de
anunciada a preocupação com a nacionalidade original, delimitada pelos perfumes das
ervas rescendentes do canteiro da casa, como a baunilha e o sassafrás, e por uma
linguagem brasileira vinda da fala de um povo que chupa caju, manga, cambucá... Ela opõe-
se às “flores de estufa” e ao artificicialismo americano, “que inventou uma máquina de
chocar ovos”, oposta às capoeiras da Tijuca, cheias de galinhas e frangos criados livres.
O autor, de início, tece um painel das “lindas serranias da Tijuca”, descrevendo seus
elementos e belezas. É espaço banhado pelo dourado do sol do verão tropical, de “formosas
manhãs” de céu arreado “do mais puro azul”, de “verde relva e da folhagem” coberta de
orvalho, que cambiava “aos toques da luz” por entre os “frocos de névoa” que restavam “da
cerração da noite” e “cingiam ainda os píncaros mais altos da montanha”, flutuantes “ao
sopro da brisa”. Nesse cenário paradisíaco, insere Ricardo, “um passeador solitário”, que
conhecia os muitos caminhos que cruzavam a encosta ocidental da montanha e rumava
mato adentro, observando as belezas, peculiaridades e ocupações da montanha.
Seu olhar desvelava a natureza do lugar, já perscrutada pela ciência. Sua presença
reporta à ação das expedições científicas custeadas pelo governo imperial para observar,
descrever, classificar, rotular, batizar e mostrar a monumentalidade da natureza brasileira.
Frente ao entrecruzamento dos campos culturais, fez trocadilho, como o nome de “dois
célebres botânicos”, estudiosos “ilustres da flora brasileira”, chamando-os freires, por tratar
de Frei José Mariano Conceição Veloso, botânico, autor de Flora Fluminensis, e de
Francisco Freire Alemão, médico e botânico. Havia certa proximidade da ciência e da arte
ao apreender a natureza, mas os procedimentos diferiam. Uma dissecava as partes da
planta e elaborava classificações, de gênero, classe e família; a outra “revelava o tato do
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artista ou do poeta” romântico, vendo-a como ser vivo que possuía coração e copiava “o
arbusto em uma das páginas do álbum”, traçando “a lápis o esboço da planta.”
As representações da serra opõem natureza/civilização, registram o pitoresco da
paisagem e indicam o interesse de estabelecer uma identidade do lugar ressaltando a
beleza dos aspectos naturais como a vegetação, o relevo e a hidrografia. A Cascatinha fazia
as preocupações do visitante “se desvaneceram completamente diante do quadro
arrebatador que se oferecera a seus olhos”. Sua queda foi associada ao manto, bíblico, de
Agar e contraposta a outras cascatas, destacando sua especificidade, sua característica
feminina e indicando-a como ponto de visitação de estrangeiros e da alta sociedade.
A visão da natureza, permeada pela subjetividade romântica, foi expressa na sua
descrição, expondo sentimentos e sensações experimentados em seu contato. Para
abarcar tal espetáculo natural, lançava-se mão da palavra, do desenho e da pintura, como
tentativas de garantir a memória, de expressar, guardar e transmitir as impressões
vivenciadas. A queda d’água aparece como objeto de contemplação e de produção artística,
como “uma aquarela da formosa paisagem”, que Ricardo “já possuía em seu álbum” e de
“outra vista” que planejava tirar, pois “nunca a vira tão abundante de água, tão enfeitada e
casquilha”. Assim, ele “teria a Cascatinha em traje de festa e em desalinho.” A inglesa Mrs.
Trowshy, ao vê-la exclamou: “_ Oh! beautiful! Very beautiful!
Daí, podia-se dirigir à “Floresta, ou mais acima ao pico da montanha que tem a forma
e o nome de Bico do Papagaio.” Já “descendo o caminho da Cascatinha”, era possível
passear “na bela estrada” que ia ao Jardim Botânico. Eram vários os passeios como à Vista
Chinesa, à Vista do Mar, à Mesa, à Cascata Grande, à Barra, à Boa Vista, à Restinga, à
Pedra Bonita, ao Canto da Saudade e ao Bico do Papagaio. Por estradas e trilhos, que
compunham uma rede de caminhos, encontravam-se comitivas de “diversas pessoas,
senhoras e homens, que iam de passeio, rindo e conversando”, e até mesmo a imaginar
aventuras, como Mrs. Trowshy, que fantasiava ataques dos “salteadores da Tijuca,
chamados quilombolas”, que “furtavam bananas, galinhas e outras cousas leves...”
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A paisagem oferecia a um artista, como um pintor, ou quem, nas horas de lazer,
gostava de desenhar, rica matéria para produção. Um pintor, com seu álbum de desenho,
“percorria os sítios da Tijuca para copiar perspectivas, que mais tarde lhe servissem de
assunto a algum quadro a óleo”. A serra apresentava dois lados distintos da natureza
fluminense, constituindo-se em fonte de imagens. Ao descrevê-los, Alencar posicionou na
polêmica segundo a qual a natureza do Novo Mundo era inferior a do Velho, por ser ainda
adolescente. Concebeu a face de “natureza agreste”, com “aqueles enormes calhaus ou
maciços de rocha, fragmentos da primeira carcaça do globo”, onde “passou a lava em
tempos remotos”.
Afirmando a individualidade da natureza local até os animais entraram na
disputa; contrapôs-se um cavalo estrangeiro, da moda, um racé, a um crioulo dos campos
do sul, que foi enaltecido, junto aos muares paulistas.
Para a banda da “natureza agreste”, podia-se fazer “excursão até a Cascata Grande,
um dos pontos mais freqüentados pelas pessoas que passam o verão na Tijuca”. Porém,
podia-se passar pela Barra e chegar à Restinga. Já, voltando para o lado do mar, ia-se à
Pedra Bonita, que “é uma rocha que se levanta sobre um cabeço de montanha como um
gorro de granito.” Conforme o narrador, “Daí, dessa atalaia das nuvens, goza-se uma vista
soberba sobre o mar, e vê-se de perto o enorme cesto da Gávea, habitualmente cingido de
vapores.” Entre os visitantes do lugar, os ingleses possuíam primazia, eles estavam em
“todos os belos sítios da Tijuca”, sendo “incansáveis exploradores desse belo arrabalde do
Rio de Janeiro.” Sobre sua presença aí, tinha o imaginário social seus registros marcados
pela peripécia diante de sua grandiosidade: “Contam que um inglês aí se perdera, ficando
sobre o gigantesco pedestal de rocha, elevado à condição de estátua, durante três dias,
sem comer nem beber”, pois foi “mais fácil de subir que de descer.” A representação de
figuras humanas minúsculas frente à grandiosidade da natureza foi recorrente na arte
oitocentista, inclusive em Fenimore Cooper, de quem Alencar foi leitor assíduo.
Experimentava-se a ambigüidade de recorrer aos padrões culturais estrangeiros, que
eram apropriados, ao mesmo tempo em que se buscava na natureza local a base para a
construção e afirmação da nacionalidade. Tratando da marcante presença inglesa no
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conhecimento, lazer e exploração do “belo arrabalde”, Alencar dizia que os ingleses tinha o
“faro do belo e do saudável” e que, chegando ao Rio de Janeiro, volviam “os olhos para
cinta de montanhas que cerca a cidade”, e consideravam “isso um sobrado natural que a
Providência construiu por cima do escritório para alcova de dormir.” Portanto, considerava
que, embora pesasse “ao nosso amor-próprio nacional, eles naturalizaram inglesa, a nossa
Tijuca; fizeram daquela serra onde campearam os Tamoios, uma Escócia brasileira”,
transformando a cultura local dos habitantes primitivos. “O grito dos higlanders percorre as
formosas encostas. Pelas grotas onde reboava primitivamente o brado selvagem da
pocema, ouve-se agora repetido de vale em vale pela voz suave das amazonas o gracioso
la-la-hi-ti.”
Num âmbito mais geral, Alencar apontou a prática dos cientistas ingleses que
exploravam as riquezas botânicas brasileiras e nomeavam seus elementos com nomes
estranhos ao meio e à cultura de origem, como forma de homenagear seus governantes,
como no caso da “flor gigante”, “espécie de loto, que os indígenas chamavam ‘milho-
d’água’”, a “rainha dos lagos, que os ingleses chamaram ‘vitória’, em honra de sua
soberana”, mas que ele chamava “imperatriz, em razão de ser uma majestade brasileira.”
Mas a Tijuca tinha também marcas da presença cultural de outras nacionalidades,
como indica a denominação Vista Chinesa, para o “magnífico cenário” no qual foi construída
“a palhoça onde pousavam os colonos” chineses, “que abriram o caminho do Jardim e
deram nome ao sítio.” Aí ocorriam piqueniques debaixo do “nemoroso bosque dos bambus”,
que guardava, “em hieróglifos e datas”, segredos gravados nos troncos, com garfos e
canivetes, deixados como “lembrança do passeio”. As cenas dos contempladores de
paisagens magníficas sobre um relevo saliente e o expediente de gravar nomes no arvoredo
revelam práticas culturais e o diálogo entre escritores e pintores de várias nacionalidade de
então.
O olhar alencariano, ao procurar definir uma identidade e um lugar para a cidade e
para o Brasil, equiparou a paisagem da Tijuca ao patamar de outras do estrangeiro e elevou
as ações do povo na construção símbolos culturais e do imaginário nacional. Inseriu a
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imagem da Tijuca num álbum folheado em sala, junto com “lindas vistas da Suiça, da
Escócia, de Sintra...” Tratando das paisagens suiças deslizou para a edificação dos heróis
nacionais, falando de Guilherme Tell, o libertador, que teve sua história feita ópera por
Rossini, e confrontou sua habilidade à dos nativos brasileiros, enaltecendo-os. “A perícia do
alemão nada é à vista da destreza dos selvagens do Brasil”, que “faziam cousas incríveis”,
como furar “os olhos de um pássaro a voar” e flechar “o peixe dentro da água.” Referindo-se
às datas comemorativas, foi contra o 7 de setembro, que bajula os reis, “mas que não honra
a nação” e afeta os “brios nacionais”. Para enaltecer feitos e figuras nacionais em oposição
aos suiços, remeteu primeiro à cidade de Friburgo como “célebre por sua ermida, que um
homem só cavou na rocha viva trabalhando vinte e cinco anos”, narrando, em seguida, que
ouvira “contar um fato análogo, sucedido em Minas”, que “é mais para admirar porque foi um
aleijado dos braços que trabalhava com os pés, e assim construiu uma capela.”
No entanto o ápice de tal processo, que punha em destaque os selvagens brasileiros
e a figura de Aleijadinho como símbolos nacionais, realizou-se ao tratar de “Genebra e o seu
belo lago”, pátria de tantos “personagens ilustres.” Numa “viagem a vôo de pensamento
pelas montanhas da pitoresca Helvécia”, um personagem descreveu “o aspecto dos campos
e bosques durante o inverno, e aquela natureza áspera e desabrida”, lançando outra
questão para o confronto, antes apenas indicada. Alencar não traçou explicitamente o
paralelo das montanhas frias com a ensolarada Tijuca no verão; deixou para o leitor, que, já
imerso no território e ambiente, passou a receber nova bateria de imagens ufanistas desse
sítio.
Para mostrar a monumentalidade, a maravilha e a originalidade dessa natureza, pôs
seus personagens em comitiva rumo à Vista Chinesa. Compunham a “luzida companhia”,
um grupo senhoras que voltava do banho de mar dos lados da Boa Vista e que, depois, foi
visto na estrada do Jardim, “que serpeja pelas encostas da serra da Tijuca, e contornando a
base da montanha desde a Cruz, no Alto da Boa Vista, vai morrer nas praias de
Copacabana”. No percurso, “avistaram os passeantes ao longe a barra da Tijuca, ao longo
da qual estendia-se o cordão de espuma das vagas, como uma franja de armarinho,
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guarnecendo o manto de cetim do oceano, a embeber o azul do céu.” Olhando a paisagem,
“saudaram com uma exclamação de prazer o quadro encantador daquela marinha, tocada
pelos raios do sol nascente, que aveludava as cores mimosas da palheta americana.” No
Canto da Saudade, “os olhos desafogados do arvoredo que vestia a orla do caminho, se
desdobraram ávidos pelos horizontes abertos, recreando-se com a paisagem de várias
chácaras, derramadas no vale, ou alteadas pelas assomadas das fronteiras colinas”.
Seguindo a comitiva, ao chegar à Vista Chinesa, podia-se “contemplar o esplêndido
cenário que se desdobrava em face” dos visitantes. “Além, na extrema, campindo os
horizontes do soberbo painel, o oceano calmo e sereno que se vinha desdobrar até babujar
com branca orla de espuma as praias de Copacabana e de Marambaia.” Era essa “a tela
onde se estampava com vivo colorido, sobre o campo azul, a magnífica paisagem.” Alencar
contrapôs ainda tais belezas a outras criadas pelo imaginário da literatura universal e que
davam identidade ao oriente, dizendo: “Um jardim encantado, como se desenha à
imaginação, quando lemos aos vinte anos os contos das Mil e uma Noites; um sonho
oriental debuxado em porcelana ou madrepérola; tal era o quadro deslumbrante que
debuxavam aquelas encostas.” Expondo seu olhar, que apreendia a natureza e a inventava
como monumento da cidade e da nação, compunha o quadro o Jardim Botânico, o mar, as
ilhas, a Lagoa, o Corcovado e o Pão de Açucar, a “grande montanha que nos serve de
pedestal.”
Somado a esses elementos de beleza que compunham a paisagem, deu-se
destaque à sua luminosidade; o que “dava a essa perspectiva um aspecto fascinador, era
sobretudo a diáfana limpidez do ar, e uma plenitude da luz que estofava os objetos,
cobrindo-os com uma espécie de áurea expansão [...] uma pubescência, doce e aveludada,
onde se engolfavam os olhos com delícia.” Diante da vista iluminada, “derramaram-se os
passeantes pela borda da esplanada para melhor apreciar os vários pontos da perspectiva,
e cruzaram-se as observações de toda a casta, e as réplicas ou risos que elas provocavam.”
Um, mostrava “o admirável panorama”, imagem do “reino das fadas”; Mrs. Trowshy,
“estatelada diante daquela magnificicência”, exclamava: “_ Fairy!... Fairy!” até que, “no seu
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entusiasmo”, falou: “_ Look, Sir, how beautiful!” Já outro “parecia enlevado ante a cena
maravilhosa; tal concentração de espírito mostrava sua atitude contemplativa.” Portanto,
“cada um quis deixar nos bambus uma lembrança do passeio” encantador ao belo lugar.
Em conversa sobre o passeio à Vista Chinesa, considerado “magnífico”, avaliava
Ricardo: “_ É um panorama admirável; não creio que haja no mundo uma tela igual...” Em
seguida, fazendo “a descrição pitoresca da Tijuca”, dizia: “_ Mais bonito do que a Vista
Chinesa, é o Bico do Papagaio”, onde se podiam “comparar os dois picos”. Assim, Alencar
apresentava aspectos da natureza como o mar, praias, montanhas, rochas, ilhas, sol ...
como símbolos da cidade, da Corte e da nação, que lhes davam individualidade, inserindo-
se no processo de invenção de uma tradição do Rio de Janeiro como cidade maravilhosa,
cheia de recantos e encantos como Copacabana, Tijuca, Lagoa, Corcovado, Pão de
Açúcar... vazados pelo sol do verão e cenário de namoros e amores. A natureza, o relevo do
lugar, as rochas e pedras..., foram elevados à condição de monumentos da cidade e do
país, além de ressaltar sua qualidade medicinal, regeneradora da saúde.
1
ALENCAR, José de. Bênção Paterna. In: ___. Ficção Completa e outros escritos. Rio de Janeiro: Companhia
Aguilar, 1965. v. 1, p. 493.; Id., Sonhos D’Ouro, 1965, p. 500-1.
2
Id., Bênção Paterna, 1965, p. 493-4, 498.; Id., Sonhos D’Ouro, 1965, p. 513.
3
Ibid., p. 499, 536.
4
Ibid., p. 500-1.
5
ALENCAR, Sonhos D’Ouro, 1965, p. 518.; NAXARA, Márcia R. Capelari. Natureza e Identidade: três narrativas
e a natureza Brasílica. In: SEIXAS, J. A . ; BRESCIANI, M. S.; BREPOHL, M. (orgs.) Razão e paixão na
política. Brasília: EdUnB, 2002. p. 137.
6
NAXARA, 2002, p. 140. ; ALENCAR, Sonhos D’Ouro, 1965, p. 518.
7
Ibid., p. 518, 520-1, 523-5, 530, 566, 569-71, 580, 588.
8
Ibid., p. 533, 524-5. ; PRADO, M. L. C. América Latina no século XIX: tramas, telas e textos.. São Paulo:
EdUSP; Bauru: EdUSC, 1999. p. 183.
9
ALENCAR, Sonhos D’Ouro, 1965, p. 503-5, 507, 519-21, 575-6.
10
Ibid., p. 525, 530. ; PRADO, 1999, p. 192.
11
Ibid., p. 190. ; ALENCAR, Sonhos D’Ouro, 1965, p. 530-1.
12
Ibid., p. 539-40.
13
Ibid., p. 577, 581.; PRADO, 1999, p. 192-3.
14
ALENCAR, Sonhos D’Ouro, 1965, p. 542, 550-2.
15
Ibid., p. 552.
16
Ibid., p. 566, 569-71.
17
Ibid., p. 579-80.
18
Ibid., p. 580-1.
19
Ibid., p. 588, 657.
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Sonhos D'Ouro - Benção Paterna



A seguir, um interessante trabalho acadêmico sobre Sonhos D'Ouro:
www.anpuh.uepg.br/xxiii-simposio/anais/textos/VALDECI%20REZENDE%20BORGES.pdf -


Informações sobre José de Alencar e sua obra:
http://www.culturabrasil.org/josedealencar.htm

POEMAS

Adormecida

Castro Alves

Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témaigner qu'elle a fait sa prière.
Et qu'elle va la faire en s'éveiliant demain.
A. DE MUSSET

Uma noite eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! tu és a flor da minha vida!..."

São Paulo, Novembro de 1868



QUADRO ARTÍSTICO


A cena numa sala pequena e atravancada;

uma mesa redonda de livros empilhada,

um piano de lado, e de outro um velador,

uma estante de livros, mobília multicor,

garrafas de cerveja, charutos e bolinhos,

cigarros sobre a mesa, o piano de mansinho

a gemer sob os dedos dum inspirado artista;

cinco sujeitos sérios, crava e atenta a vista

no teclado que brota harmonias tristonhas,

ou então se alvorota em volatas risonhas.

No mocho a fronte erguida, um rapaz aloirado,

com um charuto na boca, olhar vivo, inspirado,

improvisa; distante, um outro, no sofá,

de mão no queixo, absorto, embevecido está.

Os cigarros apagam-se esquecidos, e, frias,

no chão as cinzas caem ao som das harmonias.

Na secretária, um outro, escutando esses trinos,

escreve numa tira alguns alexandrinos.

Artistas todos são, e ali, naquela sala,

emudecem todos; somente o piano fala.



PROFISSÃO DE FÉ


Odeio as virgens pálidas, cloróticas,

Beleza de missal que o romantismo

Hidrófobo apregoa em peças góticas,

Escritas nuns acessos de histerismo.



Sofismas de mulher, ilusões óticas,

Raquíticos abortos de lirismo,

Sonhos de carne, compleições exóticas,

Desfazem-se perante o realismo.



Não servem-me esses vagos ideais

Da fina transparência dos cristais,

Almas de santa e corpo de alfinim.



Prefiro a exuberância dos contornos,

As belezas da forma, seus adornos,

A saúde, a matéria, a vida enfim.



segunda-feira, 8 de junho de 2009

Soneto, de Álvares de Azevedo

Soneto (Álvares de Azevedo)

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

...Yet one kiss on your pale clayAnd those lips once so warm - my heart! My heart.Byron, Cain..

Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia; no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença
Era em Roma. Uma noite, a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno. O fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de ***. As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas e a lua de sonolenta, se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. - A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois, o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu e a chuva caía às gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos do órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim, ela parou; estávamos num campo.
Aqui, ali, além, eram cruzes que se erguiam entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei, apenas, que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo, a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres, nada me saciava; no sono da saciedade me vinha aquela visão...
Uma noite e após uma orgia, eu deixara dormida no leito a bela condessa Barbora. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até à última gota do vinho do deleite...
Quando dei acordo de mim, estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o. Era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-apertados... Era uma defunta! E aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida... Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja que, ignoro porque, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...
Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, "do cadáver sem cabeça e do homem sem coração", como a conta Brantôme? - Foi uma idéia singular, a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim. Rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela, como o noivo os despe à noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso - cevei-lhe em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito, abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia, contudo, alguma coisa de horrível. O leito de lajes, onde eu passara uma hora de embriaguez, me resfriava. Pude, a custo, soltar-me naquele aperto do peito dela... Nesse instante, ela acordou...
Nunca ouvistes falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
- Que levas aí?
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
- É minha mulher, que vai desmaiada...
- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
- É uma defunta
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda.
- Vede - disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...
- Boa-noite, moço. Podes seguir - disse ele.
Caminhei. - Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço...
Quando eu passei a porta, ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos, meus companheiros, que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala, bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem a minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça, vi-a erguida. Ria de um rir convulso, como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre, assim.
Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
À noite, saí. Fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto e, com as mãos, cavei aí um túmulo. Tomei-a, então, pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito, muda e fria, beijei-a e cobri-a, adormecida no sono eterno, com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele,
Um ano, - noite a noite - dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia, o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...
- Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te disse que era uma virgem que dormia?
- E quem era essa mulher, Solfieri?
- Quem era? Seu nome?
- Quem se importa com uma palavra quando sente
que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa, quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
- Solfieri, não é um conto, isso tudo?
- Pelo inferno, que não! Por meu pai, que era conde e bandido! Por minha mãe que era a bela Messalina das ruas! Pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! - guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Ei-la!
Abriu a camisa e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
- Vedes-la? Murcha e seca, como o crânio dela.

Fonte:O Conto FantásticoPanorama do Conto Brasileiro vol. 8Editora Civilização Brasileira S. A. 1959
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Movimento Romântico - Afrânio Coutinho

Características do Espírito Romântico

1)Individualismo e subjetivismo: o mundo é visto através da personalidade do artista; libertação do mundo interior... da emoção, da paixão, da imaginação.

2)Ilogismo: a atitude romântica é ilógica, oscilando entre alegria e melancolia, entusiasmo e tristeza.

3)Senso de mistério: atração pelo mistério da existência, que lhe aparece envolvida de terror e sobrenatural. Individualista e pessoal, o romântico encara ao mundo com espanto permanente. A beleza, a melancolia, a própria vida, lhe parecem sempre novos, sempre despertando reações originais, independentemente das convenções e tradições.

4)Escapismo: é o desejo de fugir para um mundo idealizado, seja em direção à natureza, seja em direação ao passado ou ao futuro.

5)Reformismo: a busca por um novo mundo é responsável pelo sentimento revolucionário, fazendo o romântico ligar-se a movimento democráticos e libertários.

6)Sonho: em vez do mundo conhecido, é a terra incógnita do sonho, muitas vezes representadas por símbolos e mitos, o lugar favorito do romântico.

7)Fé: a fé comando o espírito e não a razão. Idealista, o romântico acredita poder reformar o mundo. Valoriza a faculdade mística e a intuição.

8)Culto à natureza: lugar de refúgio, puro, não contaminado pela sociedade, lugar de cura espiritual e física. A natureza é fonte de inspiração, guia e proteção amiga. Está relacionada a este culto, a ideia do "bom selvagem" de Rousseau, que falava do homen simples e bom em estado de natureza.

9)Retorno ao passado: o escapismo romântico traduz-se em fuga para a natureza e em volta ao passado. Épocas antigas, a Idade Média, o passado nacional, forneciam os ambientes, os tipos e os argumentos para a literatura romântica. A história era valorizada e estudada (historicismo).

10)Pitoresco: É o gosto das florestas, das longes terras, selvagens, orientais, ricas de pitoresco, ou simplesmente de diferentes fisionomias e costumes. O pitoresco e a cor local também tornaram-se um meio de expressão lírica e sentimental, e por fim, de excitação de sensações.

110Exagero: na sua busca de perfeição o romântico foge para um mundo onde coloca tudo o que imagina de bom, bravo, belo, amoroso, puro, situado no passado, no futuro, ou em lugar distante, um mundo de perfeição e sonho.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Ar Tenebroso do Romantismo



O Gato Preto
Edgar Allan Poe


"Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato. Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tornara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade.
Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa — , o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.
Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes. Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo — , pelo pavor extremo que o animal me despertava.
Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outramaneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso — , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em torno, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência. — Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração. Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes. Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.
Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!"