domingo, 20 de julho de 2008

1.2 - O Barroco




O homem se vê entre o céu e a terra, como afirma Afrânio Coutinho em A Introdução à Literatura no Brasil: "O homem barroco humaniza o sobrenatural, ligando o Céu e a Terra, misturando os dois planos na sua vida cotidiana, sem que precise deixar de ser pícaro para participar das coisas celestiais". Ele é consciente de sua grandeza mas atormentado pela idéia de pecado e, nesse dilema, busca a salvação de forma angustiada. Os sentimentos se exaltam, as paixões não são mais controladas pela razão, e o desejo de exprimir esses estados de alma só podem realizar-se através de antíteses, paradoxos, interrogações, repetições, paralelismos, uso freqüente da ordem inversa e metáforas. A linguagem barroca é emotiva, ambígua e facilitadora de uma abertura para a acumulação e aglomeração temáticas, porque ela tende para a variedade, para o plural, sendo por isso tido como obscura.
E assim, entre os principais temas barrocos encontramos: o sobrenatural; a morte: a expressão máxima da efemeridade das coisas; a fugacidade da vida e das coisas; o tempo: visto como agente da morte e da dissolução das coisas; o castigo; o erotismo; o misticismo; cenas trágicas; o apelo à religião; o arrependimento.
Há duas tendências no estilo barroco: o conceptismo, que ocorre sobretudo na prosa religiosa do período, correspondendo ao jogo de idéias, à organização da frase seguindo uma ordem lógica e rigorosa, que visa a convencer e a ensinar; e o cultismo, que se trata do jogo de palavras na busca da valorização do texto. Um exemplo interessante do cultismo encontra-se no trecho abaixo de um soneto de Gregório de matos:
É a vaidade, Fábio, nesta vida
Rosa, que de manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.
Nesses quartetos o poeta explica a Fábio o que é vaidade. No primeiro quarteto afirma que a vaidade é rosa, mas não qualquer uma, é aquela lisonjeada pela manhã, ou seja, a rosa recém-aberta, em todo o seu esplendor. Portanto, o poeta pode estar dizendo a Fábio que a vaidade é a beleza aparente, que se exibe, brilha e seduz("Púrpuras mil, com ambição dourada,/ Airosa rompe, arrasta presumida.") . No segundo quarteto o poeta diz que a vaidade é planta, mas em pleno esplendor da primavera (abril é o mês de apogeu da primavera no hemisfério norte). A vaidade é, então, esplendor ("Planta, que de abril favorecida") e ornamentos ("florida galeota empavesada") que se exibem pela vida ("por mares de soberba desatada") com orgulho ("sulca ufana") e arrojo ("navega destemida"). Jogando com as palavras "rosa" e "planta", em forma de metáforas, o poeta dá concretudo ao termo abstrato "vaidade". E desta maneira que, abandonando o raciocínio da clareza lógica do classicismo, o Barroco constrói tortuosamente a tentativa de captar, através de sugestões e imagens, o que são as coisas da vida. O Barroco tenta a conciliação, a incorporação, a fusão do ideal racional ao gosto pelas coisas terrenas, carnais, cotidianas.

sábado, 19 de julho de 2008

1.1 Gregório de Matos - Obra


Gregório de Matos foi o primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio geográfico e social. Influenciado pelos mestres espanhóis da Época de Ouro Góngora, Quevedo, Gracián, Calderón sua poesia é a maior expressão do Barroco literário brasileiro, no lirismo. Sua obra compreende: poesia lírica, sacra, satírica e erótica. Ao seu tempo a imprensa estava oficialmente proibida. Suas poesias corriam em manuscritos, de mão em mão, e o Governador da Bahia D. João de Alencastre, que tanto admirava "as valentias desta musa", coligia os versos de Gregório e os fazia transcrever em livros especiais. Ficaram também cópias feitas por admiradores, como Manuel Pereira Rabelo, biógrafo do poeta. Por isso é temerário afirmar que toda a obra a ele atribuída haja sido realmente de sua autoria. Entre os melhores códices e os mais completos, destacam-se o que se encontra na Biblioteca Nacional e o de Varnhagen no Palácio Itamarati.
Sua obra foi editada na Coleção Afrânio Peixoto (1a fase), da Academia Brasileira de Letras, em seis volumes, assim distribuída: I Sacra (1923); II Lírica (1923); Graciosa (1930); IV-V Satírica (1930); VI Última (1933). Na Biblioteca Municipal de São Paulo há uma cópia datilografada dos versos pornográficos de Gregório de Matos, com o título Satyras Sotádicas de Gregório de Matos.

Sobre as composições líricas de Gregório, afirma Antônio Candido, na Presença da Literatura brasileira, que elas são uma "pesquisa das emoções raras, desvendamento das contradições, busca da unidade sobre a adversidade,(...). A isso se junta o senso vivo do pecado, o desejo de perdão e uma ânsia comovedora de pureza, para dar à sua obra lírica, tanto amorosa como religiosa, um vigoroso refinamento". A seguir, um soneto religioso de Gregório:



BUSCANDO A CRISTO


A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos,

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.


A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lagrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados,


A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.


A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.



O poeta atribui um sentido simbólico ao corpo de Cristo, vendo nele o abrigo que sua alma deseja. Se, de um lado, o corpo pregado na cruz transmite impressão de grando sofrimento, por outro é esse mesmo sofrimento que dará ao poeta o perdão e a salvação, pois Cristo morreu na cruz para salvar a humanidade.

Reparemos também que o poeta, à medida que descreve o corpo de Cristo, revela a dimensão espiritual do sofrimento físico. Os braços estão abertos para amparar e abrigar o pecador, mas estão cravados e imóveis para castigar, por exemplo. No último terceto, o desejo de união com espiritual com Cristo é representado pelo desejo de união física. O poeta quer prender-se ao corpo sagrado, quer ficar cravado na cruz com Ele; o desejo de identificação é total:"para unido, atado e firme". Quanto ao estilo, o soneto iniciou várias vezes com a expressão "A vós", dando ao texto um ritmo de ladainha, oração. E como podemos observar, no texto estão presentes a razão e a emoção, a tensão entre a consciência do pecado e o desejo de salvação. Essa oscilação que leva o homem do céu ao inferno, que mostra sua dimensão carnal e espiritual, é uma das tônicas do Barroco.
A oscilação da alma barroca entre o mundo terreno e a perspectiva da salvação eterna aguça-se em Gregório de Matos Guerra. Até meados do século XVIII, nenhum homem de letras pode fugir a uma educação contra-reformista, pois os jesuítas controlam todo o sistema de ensino. Desta forma, ilustrar-se só será possível dentro dos preceitos da Companhia de Jesus, o que acontece com o futuro poeta.
Por outro lado, Gregório é filho de senhores de engenho, quer dizer, dos verdadeiros senhores da terra, dos que possuem todos os direitos, inclusive o de vida e morte e que, por isso, podem exercer o estupro ou o simples domínio sexual sobre índias e escravas. Estão presentes nele, portanto, os elementos contraditórios da época: a licenciosidade moral e a posterior consciência da infâmia, seguida do arrependimento.
Na maior parte de seus poemas religiosos, o poeta se ajoelha diante de Deus, com um forte sentimento de culpa por haver pecado, e promete redimir-se. Trata-se de uma imagem constante: o homem ajoelhado, implorando perdão por seus erros, conforme podemos verificar no primeiro quarteto do soneto Buscando a Cristo:
A vós correndo vou, braços sagrados,Nessa cruz sacrossanta descobertos,Que, para receber-me, estais abertos,E, por não castigar-me, estais cravados.
O exemplo mais conhecido de sua literatura sacra é o soneto A Jesus Cristo Nosso Senhor. Numa curiosa dialética, o poeta apela para a infinita capacidade de Cristo em redimir os piores pecadores, alegando que a ausência de perdão representaria o fim da glória divina. Trata-se, pois, de um poema simultaneamente contrito e desafiador, humilde e presunçoso.



Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,

Da vossa alta clemência me despido;

Porque quanto mais tenho delinqüido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.


Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja* um só gemido:

Que a mesma culpa que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.


Se uma ovelha perdida e já cobrada

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na sacra história,


Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.


* Sobeja: basta.





Poesia Amorosa


Seguindo o modelo dos barrocos espanhóis, Gregório apresenta uma visão cindida das relações amorosas. Ora seus poemas tendem a uma concepção "petrarquista"*, isto é, à idealização dos afetos em linguagem elevada; ora a uma abordagem crua e agressiva da sexualidade em linguagem vulgar.
* Petrarquista: referente ao poeta italiano Petrarca, (1304-74), cuja obra difunde por toda a Europa o gosto pela poesia amorosa e pelo soneto.


A) O amor elevado
Exemplo dessa perspectiva é um dos sonetos dedicados a D. Ângela, provável objeto da paixão do poeta e que o teria rejeitado por outro pretendente. Observe-se o jogo de aproximações entre as palavras anjo e flor para designar a amada. Observe-se também que, ao mesmo tempo tais vocábulos possuem um caráter contraditório (anjo = eternidade; flor = brevidade). Como sugere um crítico, esta duplicidade de Angélica lança o poeta em tensão e quase desespero ("Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.")


Anjo no nome, Angélica na cara!

Isso é ser flor, e Anjo juntamente:

Ser Angélica flor, e Anjo florente*

Em quem, senão em vós, se uniformara?


Quem vira uma tal flor, que a não cortara,

De verde pé, da rama florescente?

A quem um Anjo vira tão luzente

Que por seu Deus o não idolatrara?


Se pois como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu custódio*, e minha guarda,

Livrara eu de diabólicos azares.


Mas vejo que tão bela, e tão galharda,

Posto que* os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.


* Florente: florido.* Custódio: defesa* Posto que: ainda que.


B) O amor obsceno-satírico
Se o erotismo é a exaltação da sensualidade e da beleza dos corpos, independentemente da linguagem, que pode ser aberta ou velada; se a pornografia é a busca do sexo proibido e culpado através de imagens grosseiras e chocantes e valendo-se quase sempre de uma forma vulgar; a obscenidade situa-se noutra esfera. Ela não visa ao sensualismo refinado do erotismo nem à excitação cafajeste da pornografia. Não se trata, pois, de uma estimulação dos sentidos, e sim uma espécie de protesto contra o sistema moral, contra as concepções dominantes de amor e de sexo, e contra o próprio mundo. Às vezes, a obscenidade toma o sentido de um culto rude e subversivo do prazer contra os tabus que impedem a plena realização da libido*.
Na poesia obscena-satírica, Gregório de Matos não apresenta qualquer requinte voluptuoso. Sua visão do amor físico é agressiva e galhofeira. Quer despertar o riso ou o comentário maldoso da platéia. Por isso, manifesta desprezo pela concepção cristã do amor que envolve a camada espiritual, conforme podemos verificar no texto abaixo:
O amor é finalmenteum embaraço de pernas,uma união de barrigas,um breve tremor de artérias.Uma confusão de bocas,uma batalha de veias,um reboliço de ancas,quem diz outra coisa, é besta.
Nos seus momentos mais vulgares, Gregório se torna muito engraçado, tanto pela variedade dos palavrões como pelas descrições desbocadas dos atos e órgãos sexuais. Há, contudo, em muitos poemas expressões do mais terrível machismo e, sobremodo, um desprezo pelas mulheres, (em especial, negras e mulatas), que beira a misoginia*.



* Libido: instinto sexual.* Misoginia: ódio por mulheres




Poesia Satírica


O desengano barroco tem como uma de suas conseqüências o implacável gosto pela sátira. Resposta a uma realidade que os artistas julgam degradada, a poesia ferina e contundente não perdoa nenhum grupo social. Ricos e pobres são fustigados pelas penas corrosivas de Góngora, de Quevedo, como mais tarde o fará o brasileiro Boca do Inferno. Esta ironia cáustica e por vezes obscena é traço marcante do barroco ibérico.
Quando retorna ao Brasil, já quarentão, em 1682, Gregório de Matos encontra uma sociedade em crise. A decadência econômica torna-se visível: o açúcar brasileiro enfrenta a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas e seu preço desaba. Além disso, uma nova camada de comerciantes (em sua maioria, portugueses) acumula riquezas com a exportação e importação de produtos. Esta nova classe abastada humilha aqueles que se julgam bem nascidos, mas que, dia após dia, perdem seu poder econômico e seu prestígio.


O crítico José Miguel Wisnik capta bem o estado de espírito do poeta:
Filho de um senhor de engenho encontra o engenho em plena crise, é seu mundo usurpado por aquilo que ele vê como o arrivismo oportunista dos pretensos e falsos nobres, os negociantes portugueses. O bacharel vive a farsa das instituições jurídicas (...) O poeta culto se vê num meio iletrado. A literatura está sufocada nos "auditórios - de Igreja, academia, comemoração" - praticada por juristas, sacerdotes e burocratas, realizando a apologia do sistema. Na vida concreta, Gregório de Matos visualiza as idéias barrocas do "desengaño del mundo", do desconcerto da existência.
Contra tal ordem de coisas, contra este novo mundo, que revirou todos os princípios e hierarquias, que pôs tudo de cabeça para baixo, que está afundando a sua classe, ele vai protestar. O protesto dá-se através da linguagem poética, transformada quase sempre em caricatura, ofensa, praguejar, explosões de um cinismo cru e sem piedade. O gosto do poeta pelo insulto leva-o a acentuar os aspectos grotescos dos indivíduos e do contexto baiano como neste soneto em que descreve a cidade da Bahia (Salvador):

A cada canto um grande conselheiro,

Quer nos governar cabana e vinha,

*Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.


Em cada porta um freqüente olheiro,

Que a vida do vizinho, e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

Para a levar à Praça e ao Terreiro.


Muitos mulatos desavergonhados

Trazidos pelos pés os homens nobres,

Posta nas palmas toda a picardia.


*Estupendas usuras* nos mercados,

Todos os que não furtam muito pobres:

E eis aqui a cidade da Bahia.




Cabana e vinha: no sentido de negócios particulares.

Picardia: esperteza ou desconsideração.

Usuras: juros ou lucros exagerados.

1.Gregório de Matos - Vida


Gregório nasceu numa família com o poder financeiro alto em comparação a época, empreiteiros de obras e funcionários administrativos (seu pai era natural de Guimarães, Portugal). De fato, a nacionalidade de Gregório de Matos é portuguesa, na medida em que o Brasil só se tornou independente no século XIX.
Em 1642 estudou no Colégio dos Jesuítas, na Bahia. Em 1650 continua os seus estudos em Lisboa e, em 1652, na Universidade de Coimbra onde se forma em Cânones, em 1661. Em 1663 é nomeado juiz de fora de Alcácer do Sal, não sem antes atestar que é "puro de sangue", como determinavam as normas jurídicas da época.
Em 27 de Janeiro de 1668 teve a função de representar a Bahia nas cortes de Lisboa. Em 1672, o Senado da Câmara da Bahia outorga-lhe o cargo de procurador. A 20 de Janeiro de 1674 é, novamente, representante da Bahia nas cortes. É, contudo, destituído do cargo de procurador.
Em 1679 é nomeado pelo arcebispo Gaspar Barata de Mendonça para Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia. D. Pedro II, rei de Portugal, nomeia-o em 1682 tesoureiro-mor da , um ano depois de ter tomado ordens menores. Em 1683 volta ao Brasil.


O novo arcebispo, frei João da Madre de Deus destitui-o dos seus cargos por não querer usar batina nem aceitar a imposição das ordens maiores, de forma a estar apto para as funções de que o tinham incumbido.
Começa, então, a satirizar os costumes do povo de todas as classes sociais bahianas (a que chamará "canalha infernal"). Desenvolve uma poesia corrosiva, erótica (quase ou mesmo pornográfica), apesar de também ter andado por caminhos mais líricos e, mesmo, sagrados.
Entre os seus amigos encontraremos, por exemplo, o poeta português Tomás Pinto Brandão.
Em 1685, o promotor eclesiástico da Bahia denuncia os seus costumes livres ao tribunal da Inquisição (acusa-o, por exemplo, de difamar Jesus Cristo e de não mostrar reverência, tirando o barrete da cabeça quando passa uma procissão). A acusação não tem seguimento.
Entretanto, as inimizades vão crescendo em relação direta com os poemas que vai concebendo. Em 1694, acusado por vários lados (principalmente por parte do Governador Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho), e correndo o risco de ser assassinado é deportado para Angola.
Como recompensa de ter ajudado o governo local a combater uma conspiração militar, recebe a permissão de voltar ao Brasil, ainda que não possa voltar à Bahia. Morre em Recife, com uma febre contraída na Angola. Porém, minutos antes de morrer, pede que dois padres venham à sua casa e fiquem cada um de um lado de seu corpo e, representando a si mesmo como Jesus Cristo, alega "estar morrendo entre dois ladrões, tal como Cristo ao ser crucificado".

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A Música Barroca

A música dos séculos XVII e XVIII é chamada barroca e vai até o ano de 1750, com a morte de Bach. Os teóricos da música no barroquismo citam um famoso soneto de Marino (ele também um barroco):

"E del poeta il fin la meraviglia:Chi non sa far stupir, vada alla striglia."

A música tem que ser maravilhosa, grandiosa, produzir espanto no ouvinte, atacar nossos sentidos e ter muitos bordados e volutas. O gênero musical dominante é a ópera mas, em vez das esperadas complicações polifônicas sugeridas pelas artes plásticas e pela literatura barrocas, o que se ouve é o canto do solista, a homofonia, a ária. O gênio que abre o século é Monteverde. Se nas artes plásticas o século XVII tem Rembrandt, El Greco, Vermeer, Velazquez e Cravaggio, se a literatura nos dá Cervantes, Shakespeare, Moliére, Racine, Calderón de la Barca, a música deu poucas obras-primas de experimentadores como Monteverde, Schuetz e Purcell. A música dos Scarlatti, de Vivaldi, de Bach e Handel são do século XVIII e nada tem a ver com a do século anterior. Numa crítica à música da Renascença, que só admitia, na música sacra e no madrigal, o canto a capela, polifônico, de várias vozes combinadas em contraponto, Orazio Vecchi (1550 - 1605), polifonista erudito, destruiu (pelo ridículo) o ideal da polifonia vocal: escreveu a peça Anfiparnasso, commedia harmonica. Na encenação da peça (de 1594) os atores, no palco, fazem apenas os gestos e ficam mudos. Seus papéis são cantados, nos bastidores, por coros de quatro e cinco vozes. O efeito é cômico e abriu o caminho para o canto homófono, individual. No mesmo ano em que foi a cena (1597) lançou-se a primeira ópera, em Florença. A origem da ópera florentina é literária. Em torno do mecenas Bardi reuniram-se eruditos e literatos para estudar por que os poetas trágicos italianos haviam fracassado em recuperar a tragédia grega. Do debate concluiu-se que os papéis da tragédia grega eram declamados de um modo que se assemelhava ao canto. Para conseguir o verdadeiro efeito trágico a solução florentina foi juntar os versos à música. (E, no entanto, nada se parece menos com uma tragédia de Sófocles do que uma ópera de Monteverde.) Os primeiros libretos foram escritos pelo poeta Ottavio Rinuccini: Dafne (1597) e Eurídice (1600). A música foi de Jacopo Peri. Outro músico, o cantor Giulio Caccini, escreveu nova música para Eurídice e a diferença fundamental é que uma cuidava de musicar palavras e a outra era uma música mais trabalhadas melodicamente, procurando o significado das letras. Mas Caccini ganhou fama como o autor da Nuova Musiche, canções com a novidade de serem escritas para uma só voz. O barroco é a vitória do indivíduo sobre o coro e é o individualismo na música. Mas, habituados à polifonia e aos acordes vocais, os ouvidos precisavam que a voz dos solos tivesse um acompanhamento instrumental que tocasse acordes, que fornecesse as a harmonia completando continuamente os sons cantados, tocando acordes mais em baixo: estava inventado o basso continuo. O novo gênero institui a soberania do cantor: ele é o centro e é em torno dele que se monta todo o espetáculo. O canto monódico e o baixo-contínuo são os elementos da música barroca. Em 1681 uma grande novidade, a Ópera francesa permite a participação das mulheres no espetáculo, assumindo os papéis femininos. Até então, tanto na ópera florentina quanto veneziana ou francesa, os personagens femininos eram desempenhados por homens. A abertura das óperas passa a ser um toque forte de clarim que anuncia o começo do espetáculo. Flautas, oboés,violinos, trombetas e tambores não são admitidos nos salões. Na capela ficam apenas os cantores, muito raramente com o organista. Na chambre (câmara) dos palácios faz-se música com base em violinos (a "música de câmara", que só vai ser ouvida fora dos palácios no século XIX). Ao ar livre apresentam-se a Grande Escurie, um grupo de 25 músicos, todos capazes de tocar pelo menos dois instrumentos O violinista Corelli trabalha com temas de danças e canções antigas e cria o Concerto Grosso (peça instrumental que oscila entre a fuga e a suíte) para um grosso de orquestra e três ou quatro músicos solistas (concertinos). A palavra concerto começa a ser usada, significando uma ação concertada entre os solistas e a orquestra. Todos os grandes violinistas da época adotam a forma do Concerto para Violino e Orquestra. As peças são escritas para que o violinista possa exibir, ao máximo, seu virtuosismo e se exiba. Os tutti (todos) da orquestra são escritos apenas para dar descanso ao solista. O primeiro compositor a escrever para um solista que não toque vilino é Bach: Concerto Para cravo e Orquestra. Surge, em 1690. um novo instrumento, com sonoridade mais aguda, chamado na França de chamelu, aperfeiçoado por Denner que lhe dá o nome de clarinete. A afinação dos cravos e teclados ganha um cromatismo temperado, igual. As sete notas da escala são somadas às cinco alterações cromáticas (sustenidos e bemóis) , formando uma escala com 12 graus iguais. A divisão matematicamente exata dessas notas mantém o valor constante de 1,0594 para o semitom diatônico natural (a distância de um si-dó, por exemplo). Uma diferença de 0,007 da antiga. Bach, exigindo a nova afinação, escreve Das Wohltemperierte Klavier (O Cravo Bem Temperado). O italiano Cristófori (em 1711) o Forte Piano (forte-suave, em italiano).. Ao contrário do cravo, o instrumentista controla a intensidade forte ou suave da interpretação, dependendo da força que usa nas teclas. O instrumento é Aperfeiçoado por Silbermann e fica conhecido como pianoforte, mas logo é conhecido apenas como piano, mas é rejeitado por quase todos os músicos até o final do século XVIII. Entre os maiores opositores está Bach, que se recusa a escrever para "essa monstruosidade". No Barroco formam-se orquestras imensas mas o resultado é ruim. A orquestra barroca, em geral, tem cerca de 17 músicos. Bach usava uma formação com cinco violinos, duas vilas, dois violoncelos, dois oboés, dois fagotes, três trombones e um par de tímpanos. Em 1749, Rameau e Gluck introduzem o clarinete na orquestra da Ópera.. No Brasil. O antigo chalumeau transforma-se na charamela, também chamada de churumela. No século XVIII, em Pernambuco, há notícia de conjuntos de músicos negro, os charameleiros. A música para instrumentos de sopro, no Nordeste brasileiro, é chamada de charanga. As irmandades de Música são muito comuns na Bahia, em Pernambuco e em Minas Gerais. Há irmandades só de músicos pretos (São Benedito), só de mulatos (São José dos Homens Pardos) e só de brancos (Ordem do Carmo). São uma espécie de sindicato, onde somente os sócios podem fazer música e têm a proteção dos irmãos, em todo e por tudo. Os chefes de orquestra são chamados de regentes. Bem remunerado, mora bem, é livre e mesmo os pretos são donos de escravos. Importam de Portugal tratados de música e partituras que levam ano e meio para chegar. Na Bahia e no Rio de Janeiro há bandas de negros escravos. No fim do século XVIII surge a abertura para as óperas. A overture francesa surge com Lully , a italiana com Scarlatti, mas a primeira forma (lento - alegro - lento) prevalece, quanto é adotada por alemães e ingleses. A música barroca tem muitos nomes importantes como os luthiers mais célebres de todos os tempos, Guarnierius e Stradivárius (ambos de Cremona, na Itália), o teórico Giovanni Maria Bononcini (autor de Il Musico Práttico, o homem que mudou o nome da nota musical ut para dó), os compositores Carissimi (autor de 15 Oratórios que dão um caráter definitivo ao gênero), Lully (introdutor do balé na Ópera francesa), Corelli (autor de 48 Sonatas para dois Violinos e Contínuo e criador de uma escola para instrumentos de arco), Purcell ) o criador da ópera inglesa), Couperin (autor de L'art de toucher le clavecin e primeiro instrumentista de teclado a usar o polegar, uma inovação revolucionária), Albinone (o autor de Ópera Séria), Juan Bautista Bononcini (rival de Handel que trocou a viola de gambá na orquestra pelo violoncelo, dando importância a esse novo instrumento), Vivaldi (a grande admiração de Bach, 10 anos mais moço, que reescreve seus Concerti Grossi para órgão), Telemann (autor de 40 Óperas, 100 Suítes, 44 Paixões), Rameau (autor do Tratado de Harmonia Reduzida a seus Princípios Naturais), John Gay (autor da Ópera do Mendigo), Scarlatti (que, aos 24 anos, mesma idade de Händel, disputa com ele uma competição promovida pelo Cardeal Ottoboni. Handel vence no órgão e Scarlatti no cravo), Handel, alemão, naturalizado ingês, dono do Covent Garden, a mais importante sala de concertos da época, um dos autores mais férteis do barroco) e, naturalmente, Bach (descendente de uma família com 120 músicos, o último grande músico barroco). No Brasil o maior autor barroco é Antonio José da Silva, o Judeu (que escreveu comédias de costumes e morreu degolado, tendo o corpo queimado pela Inquisição, acusado de divulgar o lundu, "música erótica trazida da África".

Abaixo, videos de músicas representantes do Barroco:

Stradivarius
http://br.youtube.com/watch?v=cC0F52oBEgA

Bach - Brandenburg Concertos No.3 - i: Allegro Moderato
http://br.youtube.com/watch?v=hZ9qWpa2rIg

Obra de Manuel Botelho


"Querendo ter Amor ardente ensaio,

Quando em seus olhos seu poder inflama,

Teus sóis me acendem logo, chama a chama,

Teus sóis me cegam logo, raio a raio.


Mas quando de teu rosto o belo maio

Desdenha amores no rigor que aclama,

De meus olhos o pranto se derrama

Com viva queixa, com mortal desmaio,


De sorte, que padeço resplendores,

Que em teus olhos luzentes sempre avivas,

E sinto de meu pranto os desfavores:


Cego me fazem já com ânsias vivas

De teus olhos os sóis abrasadores,

De meus olhos as águas sucessivas."


Música do Parnaso



A sua primeira obra impressa foi Hay amigo para amigo escrita em 1663 e publicada em Coimbra. Sua principal obra é a coletânea de poemas Música do Parnaso, escrita em 1705 e publicado em Lisboa, tornando-o o primeiro autor nascido no Brasil a ter um livro impresso. Na obra, destaca-se o poema À Ilha Maré, com vocabulário típico dos barrocos, e um dos primeiros a louvar a terra e descrever com esmero a variedade de frutos e legumes brasileiros, lembrando sempre a inveja que fariam às metrópoles européias.


Obras:
















Outras obras e informações sobre Manuel Botelho de Oliveira podem ser vistas no site:





quinta-feira, 17 de julho de 2008

Manuel Botelho - Biografia

Nasceu em Salvador (Bahia), em 1636. Foi contemporâneo de Gregório de matos no curso de Direito em Coimbra, e durante esse período também se dedicou ao estudo do Latim, do Espanhol e do Italiano. Regressando à Bahia, abraçou a advocacia e a política. E graças ao empréstimo de dinheiro, tornou-se capitão de distritos em Jacobina. Em 1705, publicou em Lisboa seu livro, Música do Parnaso, que reunia produção poética e teatral (duas comédias, Hay amigo para amigo e Amor, Engaños y Celos). Faleceu em Salvador, a 5 de janeiro de 1711, deixando Lyra Sacra, que Heitor Martins publicou em 1971 (leitura paleográfica).

A Literatura Jesuitica e o Pe. Anchieta


A título de catequizar o "gentio"e , mais tarde , a serviço da Contra-Reforma Católica , os jesuítas logo cedo se fizeram presentes em terras brasileiras . Marcaram essa presença não só pelo trabalho de aculturação indígena , mas também através da produção literária , constituída de poesias de fundamentação religiosa , intelectualmente despojadas , simples no vocabulário fácil e ingênuo.
Também através do teatro , catequizador e por isso mesmo pedagógico , os jesuítas realizaram seu trabalho . As peças , escritas em medida velha , mesclam dogmas católicos com usos indígenas para que , gradativamente , verdades cristãs fossem sendo inseridas e assimiladas pelos índios . O autor mais importante dessa atividade é o Padre José de Anchieta . Além de autor dramático , foi também poeta e pesquisador da cultura indígena , chegando a escrever um dicionário da língua tupi-guarani .
Em suas peças , Anchieta explorava o tema religioso , quase sempre opondo os demônios indígenas , que colocavam as aldeias em perigo , aos santos católicos , que vinham salvá-las . Vejamos um trecho de uma de suas peças mais conhecidas , o Autor de São Lourenço .
Durante o século XVI a literatura portuguesa se espelhava nos clássicos: Virgílio, Homero; no Brasil não haviam sequer muitas pessoas que soubessem ler. A maioria das obras escritas no Brasil na época não foram feitas por brasileiros, mas sobre o Brasil por visitantes. Elas são chamadas Literatura de Informação. Apenas dois autores da época podem ser considerados autores brasileiros: Bento Teixeira, o primeiro poeta do Brasil, e José de Anchieta, iniciador do teatro barsileiro.

Anchieta produziu poemas liricos, cartas, sermoes teatro(autos) e uma gramatica da lingua tupi. Seus autos lembram a tradicao medieval de Gil Vicente e sao feitos para tornar mais vivos aos olhos do indio os valores e ideais catolicos. Na sua poesia, destaca-se A Santa Ines , escrita para a chegada da estatua de santa Ines. A seguir, o poema...



Cordeirinha linda,

como folga o povo

porque vossa vinda

lhe dá lume novo!


Cordeirinha santa,

de Iesu querida,

Vossa santa vinda

o diabo espanta.


Por isso vos canta,

com prazer, o povo,

porque vossa vinda

lhe dá lume novo.


Nossa culpa escura

fugirá depressa,

pois vossa cabeça

vem com luz tão pura.


Vossa formosura

honra é do povo,

porque vossa vinda

lhe dá lume novo.


O poema fala do confronto entre o bem e o mal com bastante simplicidade. A chegada de Santa Ines espanta o diabo e, gracas a ela o povo revigora a sua fe. Os versos de 5 silabas(redondilhas menor) dao ritmo ligeiro ao texto, retomando a metrica das cantigas medievais. A liguagem e clara, as ideias sao facilmente compreensiveis e o ritmo faz com que os versos tenham musicabilidade, ajudando o poeta a envolver o ouvinte e a sensibiliza-lo para a sua mensagem religiosa.